domingo, 13 de novembro de 2011

Essa eu já sabia: pesquisa indica que homofóbicos sentem excitação por homossexuais

Em pesquisa realizada, maioria dos homofóbicos sentiram-se excitados ao confrontados com cenas homossexuais. O mesmo não ocorreu com os não-homofóbicos

- Contardo Calligaris, Folha de S.Paulo

No fundo, no fundo, ele gosta!
Desde o fim do ano passado, em São Paulo, assistimos a uma série de ataques brutais contra homossexuais ou homens que seriam homossexuais aos olhos de seus agressores.

No fim de 2010, por decreto da Presidência da República, foi estabelecida a finalidade do Conselho Nacional de Combate à Discriminação e Promoção dos Direitos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (parte da Secretaria de Direitos Humanos).

Mais recentemente, o Supremo Tribunal Federal reconheceu a união entre pessoas do mesmo sexo como unidade familiar. Não me surpreende que uma explosão de homofobia aconteça logo agora, pois, em geral, o ódio discriminatório aumenta de maneira diretamente proporcional aos avanços da tolerância.

Funciona assim: quanto mais sou forçado a aceitar o outro como igual a mim, tanto mais, num âmago que mal reprimo, eu o odeio e quero acabar com ele. Mas por que eu preferiria que o outro se mantivesse diferente de mim? Por que não quero reconhecê-lo como igual? O termo de homofobia, inventado no fim dos 1960, designa, mais que um preconceito, uma reação emocional à presença de homossexuais (ou presumidos homossexuais), num leque que vai do desconforto à ansiedade, ao medo e, por fim, à raiva e à agressão.

Numa entrevista na "Trip" de outubro (http://migre.me/6563w), apresentei a explicação clássica da homofobia do ponto de vista da psicanálise: "Quando as minhas reações são excessivas, deslocadas e difíceis de serem justificadas é porque emanam de um conflito interno. Por que afinal me incomodaria meu vizinho ser homossexual e beijar outro homem na boca? De forma simples, o que acontece é: 'Estou com dificuldades de conter a minha própria homossexualidade, então acho mais fácil tentar reprimir a homossexualidade dos outros, ou seja, condená-la, persegui-la e reprimi-la, se possível até fisicamente, porque isso me ajuda a conter a minha'".

Exemplo: se eu sinto (e não quero sentir) atração por um colega de classe do mesmo sexo, o jeito, para me convencer que não sinto atração alguma, é chamar esse colega de veado, juntar um grupo que, como eu, odeie homossexuais e esperar o colega na saída da escola para enchê-lo de porradas.

Um amigo me perguntou se essa interpretação da homofobia não era sobretudo uma forma de vingança: você gosta de agredir homossexuais pelas ruas da cidade? Olhe o que isso significa: você mesmo é homossexual. Gostou? O amigo continuou: "Isso não é bonito demais para ser verdade?".

Pois bem, anos atrás, pesquisadores da Universidade da Georgia selecionaram 64 homens que (na escala Kinsey) se apresentavam como sendo exclusivamente heterossexuais. Todos foram testados por uma entrevista (clássica, o IHP) que estabelece o índice de homofobia, de 0 a 100. Com isso, foram compostos dois grupos: os não homofóbicos (IHP de 0 a 50) e os homofóbicos (IHP de 50 a 100).

Nota: chama-se pletismógrafo um instrumento com o qual se registram as modificações de tamanho de uma parte do corpo. Pois bem, todos vestiram um pletismógrafo peniano, graças ao qual qualquer ereção, até incipiente e mínima, seria medida e registrada. Depois disso, todos os 64 foram expostos a vídeos pornográficos de quatro minutos mostrando atividade sexual consensual entre adultos heterossexuais, homossexuais masculinos e homossexuais femininos.

À diferença do que aconteceu com o grupo de controle (ou seja, com os não homofóbicos), a maioria dos homofóbicos teve tumescência e ereção significativas diante dos vídeos de sexo entre homossexuais masculinos. Confirmando a interpretação da psicologia dinâmica: indivíduos homofóbicos demonstram excitação sexual diante de estímulos homossexuais.

Existe a possibilidade de que a excitação manifestada pelos homofóbicos seja efeito, por exemplo, de sua vontade de quebrar a cabeça dos protagonistas dos vídeos -existe, mas é remota (porque os 64 indivíduos da amostra passaram todos por um questionário que mede a agressividade, e ninguém se mostrou especialmente agressivo).

Para quem quiser conferir, a pesquisa, de Henry E. Adams e outros, foi publicada no "Journal of Abnormal Psychology" (1996, vol. 105, n.3), com o título "Is Homophobia Associated with Homosexual Arousal?" (a homofobia é associada à excitação homossexual?) e é acessível na internet.

Lula: “Quero ajudar Dilma em 2014″

Duas semanas depois de ficar sabendo que está com câncer na laringe, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva mostra seu estado de ânimo ao falar dos planos para o futuro:
"Quero estar forte em 2014 para ajudar a reeleger a Dilma"", contou em meio a uma conversa de mais de duas horas na tarde deste sábado, na sala do seu apartamento, no centro de São Bernardo do Campo, o mesmo onde morava antes de ser eleito presidente da República.
Lula só não se conforma de não conseguir comer seus pratos prediletos. Tinha pedido uma feijoada para o almoço, cortou tudo em pedaços pequenos, mas não conseguiu comer. O tratamento de quimioterapia provoca-lhe enjôos e o fez perder o sabor dos alimentos.
"Gostaria de entrar num freezer e só sair quando terminar essa quimioterapia...", brincou ele, ao relatar suas dificuldades com a nova rotina imposta pela doença, sem perder o bom humor.
Fora isso, Lula percebeu que já começou a perder cabelos no alto da cabeça e está conformado com a idéia de que também ficará sem a barba que cultiva desde o final dos anos 1970.
A voz já voltou ao normal e ele está com muita vontade de falar, principalmente do cenário político para as eleições de 2012. Lula até já gravou, na última sexta-feira, sua participação no programa do PT que irá ao ar em dezembro.
Seu objetivo imediato é convencer o PMDB a repetir em São Paulo a aliança que elegeu Dilma no ano passado.
Ao lado da mulher, Marisa, o ex-presidente lembra que nunca ficou tanto tempo sem sair de casa. Tinha várias viagens ao exterior marcadas até o final do ano, mas teve que cancelar tudo até fevereiro.
Daqui a dez dias, ele inicia a segunda sessão de quimioterapia, um tratamento penoso que o deixa com um gosto ruim na boca. "A Dilma me falou que isso passa rápido. São só três sessões. Quer dizer, um terço já passou...".
No final da tarde, o casal Silva recebeu a visita do casal Luiz Marinho, velhos amigos e vizinhos de chácara na represa Billings. A "vó" Marília, sogra de Marisa no seu primeiro casamento, que vive com a família, preparou o café. Sandro, o filho do meio dos dois, deu plantão junto ao telefone que não parava de tocar.
Fiquei feliz de reencontrar Lula com a mesma disposição de sempre, elevando o tom de voz para convencer os outros de que seus argumentos estão certos, em especial quando se queixa do noticiário da imprensa, uma discussão que a gente sempre tinha nos primeiros anos de governo.
A queixa é a mesma: a imprensa só se interessa em dar notícias ruins, não mostra o que acontece de bom no país. Para provar, pega o relatório que recebeu esta semana sobre o programa "Luz para todos", um dos orgulhos do seu governo, que superou a marca de 3 milhões de famílias atendidas.
Quando as visitas já estavam se despedindo, chegou a filha Lurian com dois dos netos de Lula. Dali a pouco era hora de jantar, tentar comer alguma coisa além de carne moída, arroz e ovo frito. O velho Lula continua de bem com a vida, apesar de tudo.
Vida que segue.

E agora, como explicar as críticas incoerentes a Cuba?


Ignorando fatos concretos, os críticos de Cuba alardeiam que a Ilha vive na miséria. Mas o país tem elevado Índice de Desenvolvimento Humano e excelentes indicadores sociais.
Cuba é um país inviável, no qual a população vive na miséria e passa fome. As cidades cubanas estão caindo aos pedaços, está tudo sucateado. Enfim, tudo em Cuba é ruim e o país é o mais claro exemplo do fracasso do socialismo.
Essa é a imagem de Cuba passada aos brasileiros por jornalistas, articulistas e curiosos que se baseiam em suas convicções ideológicas – principalmente – em fontes internas e externas contrárias ao governo cubano e ao sistema socialista (sempre ouvidas) e em rápidas e superficiais viagens ao país.
Mas então é preciso que esses analistas – que gostam tanto de números – expliquem como é que Cuba está em 51º lugar, entre 187 países, no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU. E como pode ser considerada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) uma nação de “desenvolvimento humano elevado”.
Não é muito coerente que os cubanos vivam na miséria e esfomeados, como se diz, e o país tenha elevado Índice de Desenvolvimento Humano, obtido a partir de indicadores nas áreas de saúde, educação e renda. E esteja entre os 51 países com o maior índice, dos 187.
O mais alto IDH é o da Noruega (0,943), seguido de Austrália, Holanda, Estados Unidos e Nova Zelândia. O primeiro grupo, de 47 países com “desenvolvimento humano muito elevado” termina com Argentina, Croácia e Barbados, esse com índice 0,793. O da Argentina é 0,797. Nesse grupo, só tem outro país latino-americano, o Chile, em 44º lugar com 0,805.
Entre os primeiros países de “desenvolvimento elevado”, estão o Uruguai (em 48º com 0,783) e Cuba, em 51º e índice de 0,776. Nesse grupo de 46 nações estão mais os seguintes latino-americanos: México (57º), Panamá (58º), Costa Rica (69º), Venezuela (73º), Peru (80º), Equador (83º), Brasil (84º) e Colômbia (87º). Os demais estão entre os que têm médio desenvolvimento humano, com exceção do Haiti, que tem baixo IDH.
O que coloca Cuba em 51º lugar e no segundo grupo é o baixo rendimento bruto per capita de sua população, que, ao contrário do que pensam ou querem que pensemos os analistas neoliberais, não significa necessariamente uma qualidade de vida muito menor. Em Cub,a a renda é mesmo muito baixa, quase a metade da brasileira, mas com pouca diferença entre o mais baixo e o mais alto rendimento. Há um sistema de subsídios – que está sendo revisto, mas com compensações – à alimentação, ao transporte, à cultura; a saúde e a educação são gratuitas em todos os níveis, do curativo à quimioterapia, da creche ao doutorado.
O “IDH de não rendimento” de Cuba – ou seja, o IDH sem o indicador de renda – é de 0,904, o que coloca o país em 25º lugar, ultrapassando 26 países que tem o IDH maior por causa da renda. O maior IDH de não rendimento é o da Austrália (0,975), seguido de Nova Zelândia, Noruega, Coreia do Sul, Holanda e Canadá. Os Estados Unidos estão em 13º lugar (0,931). Cuba está na frente, dentre outros, do Reino Unido, da Grécia, de Portugal, de Israel e dos riquíssimos Emirados Árabes Unidos, Brunei e Qatar, sendo que esse último que tem rendimento bruto per capita 20 vezes maior do que a de Cuba.
Os números do PNUD mostram que não há muita diferença entre os indicadores sociais dos países com mais alto IDH e os de Cuba. Ou seja, o baixo rendimento per capita tem baixa influência sobre a educação e a saúde dos cubanos.
Basta comparar alguns índices:
 
País
Esperança de
vida
Anos de
escolaridade
Escolaridade
esperada
Noruega
81,1
12,6
17,3
Austrália
81,9
12,0
18,0
Holanda
80,7
11,6
16,8
EUA
78,5
12,4
16,0
Nova Zelândia
80,7
12,5
18,0
Canadá
81,2
12,1
16,0
Cuba
79,1
9,9
17,5

A título de curiosidade, uma comparação entre Argentina, Uruguai, Venezuela e Brasil:

País
Esperança de
vida
Anos de
escolaridade
Escolaridade
esperada
Argentina
75,9
9,3
15,8
Uruguai
77,0
8,5
15,5
Venezuela
74,4
7,6
14,2
Brasil
73,5
7,2
13,8

Um indicador bem revelador é o índice de mortalidade infantil da Organização Mundial de Saúde, com base em crianças de menos de um ano de idade mortas entre mil. Dos países citados – os de melhor IDH, de alta renda e alguns sul-americanos –, a classificação é a seguinte:

Noruega
2,8
Holanda
3,6
Austrália
4,1
Coreia do Sul
4,2
Cuba
4,6
Nova Zelândia
4,8
Canadá
5,2
Brunei
5,8
Emirados Árabes Unidos
6,1
Estados Unidos
6,5
Qatar
6,7
Chile
7,7
Uruguai
9,2
Argentina
12,3
Venezuela
13,7
Brasil
17,3

Pode-se gostar ou não gostar do sistema social que vigora em Cuba há 52 anos, pode-se considerar que Raul e Fidel Castro fazem as coisas certas ou as coisas erradas. Cuba tem enormes problemas econômicos, sociais e políticos e há muita coisa que precisa e pode ser mudada. A população tem enormes carências, reconhecidas pelo governo cubano. Mas não há o caos que se pinta e a fome que se alardeia, nem é o país à falência que desejam seus críticos que se guiam pela ideologia, e não pelos fatos.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Netanyahu, o irracional

Ameaça de atacar Irã é blefe bastante arriscado com conseqüências catastróficas para o mundo, e não somente para Israel. Foto: Jack Guez/AFP

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu se revela um péssimo estrategista ao ameaçar um ataque contra o Irã. A intimidação, por conta do desenvolvimento de armas atômicas naquele país, também demonstra o elevado grau de irracionalidade do premier. Isso porque a ameaça é, na verdade, um blefe bastante arriscado – e com conseqüências catastróficas para o mundo, e não somente para Israel.
O que Netanyahu almeja é angariar o apoio da comunidade internacional. De fato, após a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) ter publicado um relatório no qual diz ter “sérias preocupações com as possíveis dimensões militares do programa nuclear do Irã”, Netanyahu e outras autoridades israelenses arrefeceram a retórica bélica.
E assim confirmaram que a ameaça não passa de um perigoso blefe.
Outros irracionais como o ministro das Relações Exteriores, Avigdor Lieberman, ao lado do qual o falcão Netanyahu vira uma pequena pomba, estressou a necessidade de novas “sanções paralisantes contra o Irã”. Em miúdos, Lieberman e Netanyahu, entre outros, buscam o apoio do Conselho de Segurança da Onu e da chamada comunidade internacional. No entanto, Lieberman emendou: “A opção militar é a última possível e a pior, mas ela tem de continuar sobre a mesa e pronta para ser colocada em prática”.
Aí mora o problema.
E se a China e a Rússia, como é esperado desses dois membros permanentes do Conselho de Segurança, vetassem novas sanções contra Teerã? Israel teria então de atacar o Irã. Caso contrário perderia sua credibilidade no Oriente Médio e mundo afora.
Um ataque contra o Irã seria, não resta a menor sombra de dúvida, uma missão suicida. Na quarta-feira 9, o general Massud Jazyeri, chefe do estado maior das forças iranianas contra-atacou: o Irã, em caso de ataque às suas instalações militares, “destruirá” Israel.
Pior: a resposta iraniana “não se limitará ao Oriente Médio”. O motivo? Simples: as autoridades consideram que Israel está agindo em sintonia com os Estados Unidos. E, claro, não é preciso ser especialista em Oriente Médio para deduzir que Barack Obama, como todos presidentes norte-americanos desde a criação em 1948 de Israel, agem em uníssono com o estado israelense.
Obama, impotente no seu país e globo afora, está tão desnorteado quanto Netanyahu cercado por revoltas nos países vizinhos. Por isso, vale especular, ele é conivente com a falta de lógica, ou de irracionalidade, por parte do governo israelense. Novos assentamentos israelenses continuam a pipocar em terras palestinas; Israel se engajou em uma nova queda-de-braço com a Autoridade Palestina. Onde está a lógica de comprar briga com a Turquia? E por ai vai.
Nesse quadro negro, Netanyahu não é o único a padecer de falta de racionalidade. A nova onda começou com o presidente Shimon Peres, outrora um político aparentemente capaz. No domingo 6, Peres declarou: “A possibilidade de um ataque militar contra o Irã está mais próxima do que uma opção diplomática”.
Esse cenário de irracionalismo se estende ao povo. Numerosos israelenses sabem que um ataque contra Israel será o início de um conflito global.
E, no entanto, a maioria dos israelenses daria sinal verde a um ataque contra o Irã.
Segundo o cientista político iraniano Hesam Houryaband, “o discurso de Ahmadinejad de destruir Israel não reflete a política exterior do país”. O Irã, me disse Houryaband, ‘’quer armas nucleares para proteger seu regime”. A razão? Teerã viu a invasão do Iraque, da Líbia. “Qual será o próximo da lista?” Ninguém atacará a Coréia do Norte e o Paquistão, ambos com programas nucleares avançados. E Israel, vale estressar, também é uma potencia atômica, embora jamais tenha confirmado ou desmentido dispor de um arsenal nuclear.

FHC defende "recato" no uso de maconha na USP, mas critica repressão

O ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso (PSDB) lamentou, na noite desta quarta-feira (09), a detenção de 72 estudantes que ocupavam a reitoria da USP, numa operação da Polícia Militar.
- O episódio na USP foi lamentável do começo ao fim. Uma coisa é defender a regulação do uso de drogas, mas pior ainda foi usar isso como pretexto para invadir a reitoria. A reitoria então tem razão - disse FHC, na sessão de autógrafos do DVD do documentário "Quebrando o Tabu", na livraria Saraiva, do shopping Higienópolis.
Questionado se a polícia deveria ter detido os três estudantes usuários de maconha, o ex-presidente defendeu o "recato":
- Depende, porque a lei especifica quantidades diferentes... Mas eu acho que tem que ter um certo recato. O fato de você estar ali abertamente é uma provocação, não vejo razão para isso.
Entretanto, durante o debate com os presentes ao lançamento do DVD de "Quebrando o Tabu", do diretor Fernando Grostein de Andrade, FHC criticou, de forma genérica, a ação repressiva:
- A repressão não funciona, só piora o problema.
Citou o exemplo do México e concluiu, no final:
- Se você puser na cadeia, vai aumentar o consumo. Não é a cadeia que vai resolver.

737 donos do mundo controlam 80% do valor das empresas mundiais

Um estudo de economistas e estatísticos, publicado na Suíça neste Verão, dá a conhecer as interligações entre as multinacionais mundiais. E revela que um pequeno grupo de actores económicos – sociedades financeiras ou grupos industriais – domina a grande maioria do capital de dezenas de milhares de empresas no mundo. Por Ivan du Roy
 
Wall Street - Foto de Michael Aston/Flickr
Wall Street - Foto de Michael Aston/Flickr
 
O seu estudo, na fronteira da economia, da finança, das matemáticas e da estatística, é arrepiante. Três jovens investigadores do Instituto federal de tecnologia de Zurique1 examinaram as interacções financeiras entre multinacionais do mundo inteiro. O seu trabalho - “The network of global corporate control” (“a rede de controlo global das transnacionais”) - examina um painel de 43.000 empresas transnacionais (“transnacional corporations”) seleccionadas na lista da OCDE. Eles dão a conhecer as interligações financeiras complexas entre estas “entidades” económicas: parte do capital detido, inclusive nas filiais ou nas holdings, participação cruzada, participação indirecta no capital...
Resultado: 80% do valor do conjunto das 43.000 multinacionais estudadas é controlado por 737 “entidades”: bancos, companhias de seguros ou grandes grupos industriais. O monopólio da posse capital não fica por aí. “Por uma rede complexa de participações”, 147 multinacionais, controlando-se entre si, possuem 40% do valor económico e financeiro de todas as multinacionais do mundo inteiro.

Uma super entidade de 50 grandes detentores de capitais

Por fim, neste grupo de 147 multinacionais, 50 grandes detentores de capital formam o que os autores chamam uma “super entidade”. Nela encontram-se principalmente bancos: o britânico Barclays à cabeça, assim como as “stars” de Wall Street (JP Morgan, Merrill Lynch, Goldman Sachs, Morgan Stanley...). Mas também seguradoras e grupos bancários franceses: Axa, Natixis, Société générale, o grupo Banque populaire-Caisse d'épargne ou BNP-Paribas. Os principais clientes dos hedge funds e outras carteiras de investimentos geridos por estas instituições são por conseguinte, mecanicamente, os donos do mundo.
Esta concentração levanta questões sérias. Para os autores, “uma rede financeira densamente ligada torna-se muito sensível ao risco sistémico”. Alguns recuam perante esta “super entidade”, e é o mundo que treme, como o provou a crise do subprime. Por outro lado, os autores levantam o problema das graves consequências que põe uma tal concentração. Que um punhado de fundos de investimento e de detentores de capital, situados no coração destas interligações, decidam, por via das assembleias gerais de accionistas ou pela sua presença nos conselhos de administração, impor reestruturações nas empresas que eles controlam... e os efeitos poderão ser devastadores. Por fim, que influência poderão exercer sobre os Estados e as políticas públicas se adoptarem uma estratégia comum? A resposta encontra-se provavelmente nos actuais planos de austeridade.

Mudanças estruturais passam por reforma agrária, defende professor

Wellington Zanini: “Terras que poderiam gerar renda e não produzem alimentos estão na mãos de sonegadores, especuladores e grandes multinacionais" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Vivian Virissimo

Para diminuir a pobreza no campo e a desigualdade social no país, a reforma agrária não pode deixar de ser colocada na pauta da sociedade brasileira. Essa é a posição do professor Welington Zanini do Instituto Federal de Sertão, no norte gaúcho. Em Porto Alegre para participar do 10º Congresso da Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetag) nesta quarta-feira (9), Zanini apontou que a reforma agrária é uma medida estrutural tanto para fortalecer a economia brasileira quanto para garantir a permanência dos pequenos agricultores no meio rural. “Com a reforma agrária se criaria as condições objetivas para que as pessoas possam ingressar de fato na vida produtiva”, afirmou.
O professor registrou que, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), cerca de 30% das terras brasileiras são griladas. “No Rio Grande do Sul são 23%, na Amazônia esse número é ainda maior. A polícia bate no MST que invade 0,000001% das terras do país, mas 30% das terras do país são invadidas por grilagem e nada fazem. Por que dois pesos e duas medidas? Por que uns são criminalizados e outros não?”, questiona o professor.
Além de destacar o problema da grilagem de terras, o professor também apontou as terras produtivas que não estão cumprindo sua função social como um agravante para a situação. “Terras que poderiam gerar renda e não produzem alimentos estão na mãos de sonegadores, especuladores, grandes multinacionais ou de pessoas do exterior que investem no país. Eles compram terra como reserva de valor como se fossem ações na bolsa ou cabeças de gado”, falou.
Zanini também citou a mecanização da agricultura como um dos fatores para o empobrecimento das famílias do campo e consequente concentração de terras no país. “Até 1960, quando não se tinha modernização da agricultura, as terras eram baratas e os filhos dos agricultores tinham recursos para acessar a terra. Agora uma pessoa sozinha pode trabalhar 1000 hectares. Antes isto não era possível e é claro que sobrava terra”, destacou.

Código Florestal demonstra divergências em torno do tema

Mesmo destacando todos esses indicadores, o professor ressaltou que projetos de lei que sinalizem a reforma agrária não vão passar facilmente pelo Congresso Nacional. “Os congressistas, em sua grande maioria, são sustentados pelas forças dominantes, os grandes banqueiros, empresários, industriais que não têm interesse em mudar o sistema. Quando se fala em reforma agrária já se cria um grande conflito. Se o novo Código Florestal gerou toda essa polêmica, imagina as outras reformas”, explica.

“Para aprovar o código florestal disseram que agricultura familiar ficaria inviabilizada. Mas isso não é verdade. Isso é uma demagogia já que os grandes produtores vão perder muito dinheiro" | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

A respeito do Código Florestal, Zanini ressaltou também que se deve diferenciar interesses da agricultura familiar dos grande produtores rurais. “Para aprovar o código florestal disseram que agricultura familiar ficaria inviabilizada. Mas isso não é verdade. Isso é uma demagogia já que os grandes produtores vão perder muito dinheiro. Os grandes produtores tem 85% das terras, 20% das terras deles é quase toda a área da agricultura familiar”, estima.
Mesmo assim o professor reconheceu que algumas propriedades da agricultura familiar ficariam inviabilizadas com a preservação prevista no Código Florestal, mas que isso poderia ser resolvido com políticas públicas específicas para pequenos produtores. “Se o estado tem dinheiro para perdoar dívida de latifundiário, ele tem que ter dinheiro para recuperar uma área da agricultura familiar. Agora é uma questão política”, falou.

Mudanças passam por organização no movimento sindical

Zanini garante que a desorganização dos movimentos sindicais é um obstáculo, bem como a divisão dos grupos políticos. “Hoje temos várias representações da categoria, antigamente todos grupos estavam reunidos na Fetag. Desde 1975 houve ruptura, com a criação do MST, depois o Movimento dos Pequenos Agriculturas e outros”, afirmou.
Segundo o professor os interesses da agricultura familiar deveriam ser aglutinados em uma só frente. “Todos os grupos têm visões diferentes, os métodos são outros, mas sem uma unidade a agricultura familiar perde a interlocução. Pelo menos as demandas poderiam ser compatibilizadas. Caso contrário, o agricultor familiar acaba sendo testa de ferro e massa de manobra do grande produtor”, opina.
O professor enfatizou a necessidade do movimento sindical assumir o papel de aglutinar as diferentes tendências. “A Farsul sempre disse que todo agricultor é igual, que não temos que fazer essa divisão. O mercado sempre tenta desorganizar para obter vantagem. Os agricultores têm que se dar conta, não podem ser cooptados com esse discurso fácil da produtividade e o movimento sindical é o caminho”, falou.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Líbia, a barbárie

São sete meses de intervenção, cerca de 30 mil mortos e 20 mil feridos. São 142,857 assassinatos por dia. Em estatística não faz diferença arredondar o número acima e afirmar que foram assassinadas, entre homens, mulheres e crianças, uma média de 143 pessoas por dia, ou seja, quase 6 pessoas por hora.
 
Não é a última morte, mas foram chocantes (como toda morte violenta é) as imagens do linchamento de Khadafi. Quantas outras imagens iguais ou piores a essa houve em mais essa guerra patrocinada pelos Estados Unidos (Barack Obama), França (Nicolas Sarkozy) e Reino Unido (David Cameron)?
 
Longe de defender a ditadura de Khadafi, pelo contrário, condeno-a com todos seus crimes.
 
A barbárie foi desenhada desde o início com o desrespeito à resolução 1973/2011 da ONU e com o comportamento parcial da mídia internacional na cobertura da invasão (da Otan) estrangeira da Líbia, que acobertou, ao não divulgar, o abuso aos direitos humanos dos “soldados rebeldes da liberdade”.
 
É bem provável que a Líbia continuará por um longo tempo sem democracia e com seu povo sofrendo todo tipo de desrespeito aos seus direitos humanos.
 
Como afirma Marcelo Zero no seu artigo “Democraciaou Barbárie?”, se “o novo governo líbio tivesse um compromisso mínimo com valores democráticos, Khadafi e seus filhos teriam sido levados a julgamento pelos seus inúmeros crimes, num processo legal e com direito à defesa. No entanto, preferiram linchá-los e executá-los de forma cruel”.
 
É inegável que o autodenominado Conselho Nacional de Transição (CNT) tem, entre seus lideres, inúmeros ex-integrantes do governo Khadafi. Eram eles democráticos e por acaso faziam parte de um governo ditatorial? Qual é o compromisso deles e desse conselho com a democracia e os direitos humanos?
 
Provavelmente, nenhum, ou muito pouco, e isto já esta consubstanciado no recente relatório da Anistia Internacional, intitulado “Detention Abuses Staining the New Lybia”. O relatório trouxe à luz a prática de tortura e de execuções sumárias que o novo e “democrático” regime de “liberdade” tem imposto.
 
Grupos armados (soldados do CNT), segundo o artigo “Líbia – Um relato pessoal”, de Juliana Medeiros, no blog Substantivo Comum, rondam Tripoli. Os homens desses grupos “em sua maioria, não são líbios, mas mercenários contratados pela Otan, qatarianos e soldados das forças especiais britânicas[...] Eles mantém guarda nas ruas, para evitar que algum cidadão se "indisponha" com o "novo" regime que estão implantando.”
 
Qualquer indisposição ou mínima discordância com o novo regime, esses “soldados da liberdade” fazem “justiça” com as próprias mãos. Há execuções e prisões todos os dias.
 
Morto Khadafi, a Otan anunciou a retirada de suas tropas. Os mercenários também sairão, ou continuarão remunerados pelo CNT, uma vez que não há forças policiais da nova ordem? Na guerra, a Líbia vive o caos e os líbios são vítimas da barbárie. Com a saída das tropas estrangeiras de intervenção, não há a perspectiva de recuperação a curto prazo, pois agora começa a disputa entre as várias tribos e etnias.
 
Nunca é demais lembrar que Khadafi, ao sentir que não tinha mais apoio popular e militar para sustentar-se no poder, tentou, com a mediação da Organização da Unidade Africana (OUA), negociar uma transição política. O Conselho de Segurança da ONU, com o patrocínio da Otan (leia-se Sarkozy e Cameron, que assim como Obama, precisam desviar a atenção da crise política, econômica e social de seus países), rejeitou esta saída pacífica.
 
Como sempre, os donos do capital preferem a guerra, pois é assim que se sustentam. Sustentam-se com a guerra e, depois, com a reconstituição do país arrasado. Sete meses, no mínimo 50 mil vítimas (não contamos a migração forçada, os estupros, a fome, a dor, as doenças posteriores, e o sofrimento dos sobreviventes), com cerca de 30 mil vidas sacrificadas.
 
Para o dono do capital e os governantes que o sustentam, a guerra não conta, pois a morte, o ferimento, a dor e às vezes até as lágrimas também geram lucros.
 
Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR) e ex-presidente do Parlamento do Mercosul.
Por Dr. Rosinha,

São sete meses de intervenção, cerca de 30 mil mortos e 20 mil feridos. São 142,857 assassinatos por dia. Em estatística não faz diferença arredondar o número acima e afirmar que foram assassinadas, entre homens, mulheres e crianças, uma média de 143 pessoas por dia, ou seja, quase 6 pessoas por hora.

Não é a última morte, mas foram chocantes (como toda morte violenta é) as imagens do linchamento de Khadafi. Quantas outras imagens iguais ou piores a essa houve em mais essa guerra patrocinada pelos Estados Unidos (Barack Obama), França (Nicolas Sarkozy) e Reino Unido (David Cameron)?

Longe de defender a ditadura de Khadafi, pelo contrário, condeno-a com todos seus crimes.

A barbárie foi desenhada desde o início com o desrespeito à resolução 1973/2011 da ONU e com o comportamento parcial da mídia internacional na cobertura da invasão (da Otan) estrangeira da Líbia, que acobertou, ao não divulgar, o abuso aos direitos humanos dos “soldados rebeldes da liberdade”.

É bem provável que a Líbia continuará por um longo tempo sem democracia e com seu povo sofrendo todo tipo de desrespeito aos seus direitos humanos.

Como afirma Marcelo Zero no seu artigo “Democraciaou Barbárie?”, se “o novo governo líbio tivesse um compromisso mínimo com valores democráticos, Khadafi e seus filhos teriam sido levados a julgamento pelos seus inúmeros crimes, num processo legal e com direito à defesa. No entanto, preferiram linchá-los e executá-los de forma cruel”.

É inegável que o autodenominado Conselho Nacional de Transição (CNT) tem, entre seus lideres, inúmeros ex-integrantes do governo Khadafi. Eram eles democráticos e por acaso faziam parte de um governo ditatorial? Qual é o compromisso deles e desse conselho com a democracia e os direitos humanos?

Provavelmente, nenhum, ou muito pouco, e isto já esta consubstanciado no recente relatório da Anistia Internacional, intitulado “Detention Abuses Staining the New Lybia”. O relatório trouxe à luz a prática de tortura e de execuções sumárias que o novo e “democrático” regime de “liberdade” tem imposto.
Grupos armados (soldados do CNT), segundo o artigo “Líbia – Um relato pessoal”, de Juliana Medeiros, no blog Substantivo Comum, rondam Tripoli. Os homens desses grupos “em sua maioria, não são líbios, mas mercenários contratados pela Otan, qatarianos e soldados das forças especiais britânicas[...] Eles mantém guarda nas ruas, para evitar que algum cidadão se "indisponha" com o "novo" regime que estão implantando.”

Qualquer indisposição ou mínima discordância com o novo regime, esses “soldados da liberdade” fazem “justiça” com as próprias mãos. Há execuções e prisões todos os dias.
Morto Khadafi, a Otan anunciou a retirada de suas tropas. Os mercenários também sairão, ou continuarão remunerados pelo CNT, uma vez que não há forças policiais da nova ordem? Na guerra, a Líbia vive o caos e os líbios são vítimas da barbárie. Com a saída das tropas estrangeiras de intervenção, não há a perspectiva de recuperação a curto prazo, pois agora começa a disputa entre as várias tribos e etnias.

Nunca é demais lembrar que Khadafi, ao sentir que não tinha mais apoio popular e militar para sustentar-se no poder, tentou, com a mediação da Organização da Unidade Africana (OUA), negociar uma transição política. O Conselho de Segurança da ONU, com o patrocínio da Otan (leia-se Sarkozy e Cameron, que assim como Obama, precisam desviar a atenção da crise política, econômica e social de seus países), rejeitou esta saída pacífica.

Como sempre, os donos do capital preferem a guerra, pois é assim que se sustentam. Sustentam-se com a guerra e, depois, com a reconstituição do país arrasado. Sete meses, no mínimo 50 mil vítimas (não contamos a migração forçada, os estupros, a fome, a dor, as doenças posteriores, e o sofrimento dos sobreviventes), com cerca de 30 mil vidas sacrificadas.

Para o dono do capital e os governantes que o sustentam, a guerra não conta, pois a morte, o ferimento, a dor e às vezes até as lágrimas também geram lucros.

* Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal (PT-PR) e ex-presidente do Parlamento do Mercosul.

Veja análise da Via sobre o relatório do Código



Por Via Campesina Brasil

       

Código Florestal - Análise do relatório do senador Luiz Henrique


O relatório do Senador Luiz Henrique, apresentado na última terça (25/10) na comissão de Ciência e Tecnologia e de Agricultura e Reforma Agrária, mantém o mesmo eixo do projeto aprovado na Câmara dos Deputados, de autoria do deputado Aldo Rebelo.

Houve algumas modificações na estrutura, deixando o texto mais fácil para vetos presidenciais. Separou-se as questões conceituais das questões de regularização. Mas ficou apenas nisso. Os principais pontos problemáticos continuam no texto:

AnistiaSerão isentas de recuperação todas as áreas consolidadas até 2008. Nenhuma pena ou exigencia, para quem agrediu o meio ambiente ate 2008. Ou seja, quem está plantando soja transgênica na beira do rio poderá continuar a plantar. É a continuidade da emenda que os ruralistas aprovaram na Câmara, piorando ainda mais o texto do deputado Aldo Rebelo (Artigo 53)

Garante a manutenção de pastagem em topos de morro e bordas de chapada. (Artigo 54 §1º)  A pastagem é um monocultivo que praticado em areas de risco, como topos de montanha e beira de rios, traz muitas consequencias ao meio ambiente.

Acesso por parte dos grandes proprietários de fundos públicos para recuperar os desmatamentos que fizeram ilegalmente (Artigo 41, inciso VII)

Data para regularização
O texto aceita o conceito de áreas consolidadas para todo o desmatamento feito até julho de 2008. É inaceitável que os desmatamentos feitos já no século XXI sejam considerados como legítimos! O mínimo aceitável seria considerar a data da última alteração do Código Florestal, que ocorreu em 2001. Não há qualquer justificativa, nem legal, nem científica, para que o ano de 2008 seja colocado como data de corte.

Agricultura Familiar
Continua tratando igual agricultura familiar e propriedades com 04 módulos rurais. Não trabalhou com um capítulo específico. Nesse sentido, há um acordo construido por todas os movimentos sociais do campo e o movimento sindical, ou seja da contag, fetraf e via campesina, para apresentarmos uma emenda substitutiva no senado, que cria um capitulo específico, apenas para a agricultura familiar.  Esperamos que passe nas próximas comissões.

Latifúndio improdutivo

O texto considera como área consolidada aquelas que estão paradas, improdutivas, há 10 anos ou menos. Ou seja, além de legitimar o latifúndio improdutivo, o texto possibilita novos desmatamentos, já que com 10 anos a vegetação regenerada já é abundante. (Artigo 3, incisos V e IX)

Copa do Mundo
O texto libera o desmatamento em Áreas de Preservação Permanente para eventos internacionais e para construção de estádios, aumentando os grandes impactos da Copa do Mundo e das Olimpíadas. (Artigo 3, inciso VIII, alínea b; Artigo 8, §1º)

Áreas de Preservação Permanente
O texto autoriza o plantio de árvores produtoras de frutos ou outros produtos em áreas de APP, abrindo espaço para a citricultura, as borracheiras etc (Artigo 3, inciso X, alínea i)

O texto excluí os apicuns e salgados da categoria de APP, justamente as partes dos Mangues onde se desenvolve a predatória indústria da carcinocultura, ecossistema fundamental para a reprodução de inúmeros animais. Regulariza também todas as industrias da carcinocultura que já estejam instaladas. (Artigo 4, §3º; Artigo 53 §1º)

Novas supressões poderão ser feitas para implantar lavouras, como soja, cana (Artigo 8).

Reduz a APP de 30 para 15 metros para recuperação nos casos que não forem consolidados. (Artigo 54 §1º)

Reserva Legal
Permite compensar a reserva legal desmatada dentro do mesmo bioma, possibilitando a criação de desertos verdes imensos, como no caso do estado de São Paulo (tenderá a ser um imenso canavial). Ou seja, o sujeito tem duas propriedades no mesmo bioma, da mata atlantica, por exemplo. Num deles proprio para agricultura ele pode desmatar tudo, e diz que esta conservando o segundo que fica numa encosta, num outro estado.

O texto  Permite também que terras compradas de agricultores familiares e tenham reservas, sejam usadas para essa compensação. (Artigo 59)

Mantém a possibilidade de que médias e grandes propriedades possam se subdividir em propriedades de 04 módulos e, com isso, ficarem livres de recompor a Reserva Legal desmatada.  Ou seja, mantem a gravidade de que ate 4 modulos (que na amazonia da 500 hectares, nao precisa respeitar a reserva legal de 80% e nem no Cerrado de 40%.;

Continua permitindo a recuperação da Reserva Legal com 50% de espécies exóticas.  Ou seja, as grandes empresas de celulose, podem considerar o monocultivo de eucalipto, como parte da reserva legal... Isso vai abrir brecha para entrada rapida do eucalipto na pre-amazonia e de maranhao, e nos cerrados do Piaui..

Cadastro Ambiental Rural

Para se regularizar, os grandes proprietários precisarão apresentar apenas um ponto georreferenciado, ficando isento de apresentar o perímetro exato da propriedade. (Artigo 18, §1º)

Mercantilização da Natureza
Possibilita que grandes proprietários recebam pagamentos por serviços ambientais para manterem a sua obrigação de preservar APP e RL, invertendo totalmente o conceito de função social da propriedade. (Artigo 42)

Cria a Cota de Reserva Ambiental (CRA), que transforma cada hectare de floresta em títulos que deverão, obrigatoriamente, ser registrados na bolsa de valores. Assim, o capital financeiro transformará nossas florestas em título especulativo! Além do mais, os desmatadores poderão “compensar” as florestas que eram obrigados a proteger comprando na bolsa de valores! (Artigo 46)

Uma vez comercializada a CRA, o agricultor que se arrepender não poderá retirar sua floresta do sistema financeiro, a não ser que o comprador garanta a aquisição de outra área (ou outra cota). (Artigo 49, §1º)

Silvicultura
Silvicultura é reconhecida, para fins da Política Agrícola Nacional, igual a agricultura (Artigo 69).


Concluindo, o relatorio do senador Luiz Henrique (PMDB-SC)  foi coerente com sua classe, a dos grandes proprietarios de terra.  E manteve na essencia, o que ja veio da camara dos deputados.   Esperamos que agora as comissões de meio ambiente e de agricultura do Senado, mudem essa logica.   E na pior das hipoteses, a Presidenta  Vete, os artigos mais estafurdios que colocam em risco o meio ambiente do territorio brasileiro, com graves consequencias para toda sociedade, que vive no meio rural e nas cidades.



Brasilia, 27 de outubro de 2011.

Avaliação  da equipe da Secretaria Operativa

da Via campesina Brasil.


O poder permanente de derrubar governos

Por Maria Inês Nassif

O poder permanente de derrubar governosA corrupção do sistema político merece uma reflexão para além das manchetes dos jornais tradicionais. Em especial neste momento que o país vive, quando a nova democracia completou 26 anos e a política, que é a sua base de representação, se desgasta perante a opinião pública. Este é o exato momento em que os valores democráticos devem prevalecer sobre todas as discordâncias partidárias, pois chegou no limite de uma escolha: ou diagnostica e aperfeiçoa o sistema político, ou verá sucumbi-lo perante o descrédito dos cidadãos.

O país pós-redemocratização passou por um governo que foi um fracasso no combate à inflação, um primeiro presidente eleito pelo voto direto pós-ditadura apeado do poder por denúncias de corrupção, dois governos tucanos que, com uma política antiinflacionária exitosa, conseguiram colocar o país no trilho do neoliberalismo que já havia grassado o mundo, e por fim dois governos do PT, um partido de difícil assimilação por parcela da população. Nesse período, a mídia incorporou como poder próprio o julgamento e o sentenciamento moral, numa magnitude tal que vai contra qualquer bom senso.

Este é um assunto difícil porque pode ser facilmente interpretado como uma defesa da corrupção, e não é. Ou como questionamento à liberdade de imprensa, e está longe disso. O que se deve colocar na mesa, para discussão, é até onde vai legitimidade da mídia tradicional brasileira para exercer uma função fiscalizadora que invade áreas que não lhes são próprias. Existe um limite tênue entre o exercício da liberdade de imprensa na fiscalização da política e a usurpação do poder de outras instituições da República.

Outra questão que preocupa muito é que a discussão emocional, fulanizada, mantida pelos jornais e revistas também como um recurso de marketing, têm como maior saldo manter o sistema político tal como é. É impossível uma discussão mais profunda nesses termos: a escandalização da política e a demonização de políticos trata-os como intrinsicamente corruptos, como pessoas de baixa moral que procuram na atividade política uma forma de enriquecimento privado. Ninguém se pergunta como os partidos sobrevivem mantidos por dinheiro privado e que tipo de concessão têm que fazer ao sistema.

Desde Antonio Gramsci, o pensador comunista italiano que morreu na masmorra de Mussolini, a expressão “nenhuma informação é inocente” tem pontuado os estudos sobre o papel da imprensa na formulação de sensos comuns que ganham a hegemonia na sociedade. Gramsci já usava o termo “jornalismo marrom” para designar os surtos de pânico promovidos pela mídia, de forma a ganhar a guerra da opinião pública pelo medo.

No Brasil atual, duas grandes crises de pânico foram alimentadas pela mídia tradicional brasileira no passado recente. Em 2002, nas eleições em que o PT seria vitorioso contra o candidato do governo FHC, a mídia claramente mediou a pressão dos mercados financeiros contra o candidato favorito, Luiz Inácio Lula da Silva. Tratava-se, no início, de fixar como senso comum a referência “ou José Serra [o candidato tucano] ou o caos”.

Depois, a meta era obrigar Lula e o PT ao recuo programático, garantindo assim a abertura do mercado financeiro, recém-completada, para os capitais internacionais. Em 2005, na época do chamado “mensalão”, o discurso do caos foi redirecionado para a corrupção. Politicamente, era uma chance fantástica para a oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva: a única alternativa para se contrapor a um líder carismático em popularidade crescente era tirar de seu partido, o PT, a bandeira da moralidade. A ofensiva da imprensa, nesse caso, não foi apenas mediadora de interesses. A mídia não apenas mediava, mas pautava a oposição e era pautada por ela, num processo de retroalimentação em que ela própria [a mídia] passou a suprir a fragilidade dos partidos oposicionistas. Ao longo desse período, tornou-se uma referência de poder político, paralelo ao instituído pelo voto.

Eleita Dilma Rousseff, a oposição institucional declinou mais ainda, num país que historicamente voto e poder caminham juntos, e ao que tudo indica a mídia assumiu com mais vigor não apenas o papel de poder político, mas de bancada paralela. Dilma está se tornando uma máquina de demitir ministros. Nas primeiras demissões, a ofensiva da mídia deu a ela um pretexto para se livrar de aliados incômodos, nas complicadas negociações a que o Poder Executivo se vê obrigado em governos de coalizão num sistema partidário como o brasileiro. Caiu, todavia, numa armadilha: ao ceder ministros, está reforçando o poder paralelo da mídia; em vez de virar refém de partidos políticos que, de fato, têm deficiências orgânicas sérias, tornou-se refém da própria mídia.

As ondas de pânico criadas em torno de casos de corrupção, desde Collor, têm servido mais a desqualificar a política do que propriamente moralizar a nossa democracia. Mais uma vez, volto à frase de Gramsci: não existe notícia inocente. O Brasil saído da ditadura já trazia, como herança, um sistema político com problemas que remontam à Colônia. O compadrio, o mandonismo e o coronelismo são a expressão clássica do que hoje se conhece por nepotismo, privatização da máquina pública e falha separação entre o público e o privado. A política tem sido constituída sobre essas bases e, depois de cada momento autoritário e a cada período de redemocratização no país, seus problemas se desnudam, soluções paliativas são dadas e a cultura fica. Por que fica? Porque é a fonte de poderes – poderes privados que podem se sobrepor ao poder público legitimamente constituído.

O sistema político é mantido por interesses privados, e é de interesse de gregos e troianos que assim permaneça. Segundo levantamento feito pela Comissão Especial da Câmara que analisa a reforma política, cerca de 360 deputados, em 513, foram eleitos porque fizeram as mais caras campanhas eleitorais de seus Estados. Com dinheiro privado. Em sã consciência, com quem eles têm compromissos? Eles apenas tiveram acesso aos instrumentos midiáticos e de marketing político cada vez mais sofisticados porque foram financiados pelo poder econômico. É o interesse privado quem define se o dinheiro doado aos candidatos e partidos é lícito ou ilícito.

O dinheiro do caixa dois passou a fazer parte desse sistema. Não existe nenhum partido, hoje, que consiga se financiar privadamente – como define a legislação brasileira – sem se envolver com o dinheiro das empresas; e são remotíssimas as chances de um político financiado pelo poder privado escapar de um caixa dois, porque normalmente é o caixa dois das empresas que está disponível. Num sistema eleitoral onde o dinheiro privado, lícito e ilícito, é o principal financiador das eleições, ocorre a primeira captura do sistema político pelo poder privado. E isso não acaba mais.

Esse é o âmago de nosso sistema político. A democratização trouxe coisas fantásticas para a política brasileira, como o voto do analfabeto, a ampla liberdade de organização partidária e a garantia do voto. Mas falhou no aperfeiçoamento de um sistema que obrigatoriamente teria de ser revisto, no momento em que o poder do voto foi restabelecido pela Constituição de 1988.

Num sistema como esse, por qualquer lado que se mexa é possível desenrolar histórias da promiscuidade entre o poder público e o dinheiro privado. Por que isso não entra, pelo menos, em discussão? Acredito que a situação permaneça porque, ao fim e ao cabo, ela mantém o poder político sob o permanente poder de chantagem privado. De um lado, os financiadores de campanhas se apoderam de parcela de poder. De outro, um sistema imperfeito torna facilmente capturável o poder do voto também por aparelhos privados de ideologia, como a mídia. Como nenhuma notícia é inocente, a própria pauta leva a relações particulares entre políticos e o poder econômico, ou entre a máquina pública e o partido político. A guerra permanente entre um governo eleito que tem a oposição de uma mídia dominante é alimentada pelo sistema.

O apoderamento da imprensa é ainda maior. Se, de um lado, a pauta expressa seu imenso poder sobre a política brasileira, ela não cumpre o papel de apontar soluções para o problema. Não existe intenção de melhorá-lo, de atacar as verdadeiras causas da corrupção. Apesar da imensa caça às bruxas movida pela mídia contra os governos, em nenhum momento essa sucessão de escândalos, reais ou não, incluíram seriamente a opinião pública num debate sobre a razão pela qual um sistema inteiro é apropriado pelo poder privado, inclusive e principalmente porque não se questiona o direito de apropriação do poder público pelo poder privado. A mídia tradicional não fez um debate sério sobre financiamento de campanha; não dá a importância devida à lei do colarinho branco; colocou a CPMF, que poderia ser um importante instrumento contra o dinheiro ilícito que inclusive financia campanhas eleitorais, no rol da campanha contra uma pretensa carga insuportável de impostos que o brasileiro paga.

Pode fazer isso por superficialidade no trato das informações, por falta de entendimento das causas da corrupção – mas qualquer boa intenção que porventura exista é anulada pelo fato de que é este o sistema que permite à imprensa capturar, para ela, parte do poder de instituições democráticas devidamente constituídas para isso.

(*) Texto apresentado no Seminário Internacional sobre a Corrupção, dia 7 de novembro de 2011, em Porto Alegre.